quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Crítica de livro - Operação Cavalo de Troia 1

Apesar de muitas opções literárias presentes em lingua portuguesa, o brasileiro ainda é um povo que pouco se proporciona este prazer, e infelizmente quando se apega a uma leitura, não utiliza a razão e o bom senso para averiguar se o que esta lendo é uma ficção ou um fato real, e chega a criar até mesmo verdadeiras filosofias em torno de algumas obras. Enfim, após ler um livro que tem a muitos anos um forte apelo, citado até mesmo por professores e "pesquisadores", afirmando ser este um relato verdadeiro, escrevo esta pequena crítica após ler e estudar as páginas da referida obra.

Apontaremos a seguir as discordâncias históricas e culturais encontradas no referido livro, o que por si só comprovaria seu conteúdo fictício e não merecendo crédito quanto a sua veracidade.

1 – A autor fala que a missão retornou ao ano 30 da nossa era, desconsiderando as correções que nosso calendário sofreu, pois o mesmo fala num número exatos de ano, ou seja, ele retornou a exatos 1980 anos atras (do nosso ponto de vista, 2010). Neste ano exato o autor relata que a pascoa judaica, ou seja, o Pessach ocorreria entre uma sexta e um sábado ou shabat judaico. De acordo com qualquer calendário perpetuo, tanto o kaluach (calendário hebreu) quanto o calendário perpetuo católico (com a correção do calendário juliano para o gregoriano), colocam exatamente as datas de sua chegada ao passado, dia 30 de março numa quinta feira (como o mesmo afirma), mas a páscoa daquele ano não caiu no sábado, mas sim entre quarta e quinta, (quarta a vespera e quinta a pascoa mesmo). Do mesmo modo o autor se esquece nas suas conversões de que o calendário judaico é um calendário que tem seu inicio ao por do sol, ou surgimento da primeira estrela, e diferente do gregoriano que começa após as 23:59.

Todo o meio acadêmico já sabe que Jesus historicamente pode sim ter existido, pois temos referencias a ele no próprio Talmud, alem da obra de Josefus, e que corrigindo os cálculos do calendário gregoriano, identificamos seu nascimento em aproximadamente entre 06 e 08 antes da era comum, ou seja, mais precisamente no ano 07 antes de cristo. Desta forma, Jesus tendo pregado dos 30 aos 33 anos, sua morte ocorreria no ano 26 da nossa era, nesta data sim a pascoa ou pessach ocorreria num shabat, mas no dia 23 de março. De acordo com os calendário, da mesma forma se Jesus tivesse realmente nascido no ano 1, e morrido no ano 33, a pascoa ou pessach também ocorreria num shabat, mas no dia 04 de abril. Logo as datas informadas no livro estão totalmente erradas. Já com este erro podemos desconsiderar a obra como autentica, pois temos material suficiente e ao alcance de todos hoje em dia para comprovar tal evidência.

2 – De acordo com as leis referentes ao shabat, só é proibido alguns trabalhos (39 pra ser mais exato). Não se pode fazer fogo no shabat, apenas as duas velas que se acendem antes do por do sol de sexta-feira. Como então que em pleno shabat eles bebiam faziam alimentos ao fogo (leite, almoço, etc) se fazer ou mexer com fogo no shabat é proibido? É proibido banhar-se no shabat, a menos que seja extrema urgência de higiene (doença por exemplo), logo por prudencia não se lavam ao acordar como relata o autor.

Outro ponto importante que o autor relata é que o sexo é proibido no shabat, o que não é verdade, muito pelo contrario, por ser um dia de descanso de trabalhos e um dia para se estar com a família, é recomendável ao casal que faça sexo, pois é o dia mais propicio para trazer ao mundo mais uma alma, devido a proteção divina que paira neste dia.

3 – Agora veremos erros grotescos e preconceituosos:

  • Afirmar que Jesus era caucasiano. Jesus sendo judeu, com certeza seria semita e não ariano. Sendo semita teria feições que representam os povos do oriente médio da atualidade, ou seja, pele morena ou amarelada, olhos pretos, castanhos (em todas as tonalidades), mel levemente esverdeados (olhos claros citados por publuis lentulus). Não existe olhos azuis em povos semitas, mesmo hoje que existe a miscigenação é algo muito difícil ocorrer, pois olhos escuros são dominantes aos olhos azuis, imaginemos a 2000 anos atrás com todo o orgulho racial e leis de matrimônio existentes entre os judeus.
  • Pedro de olhos azuis. Como mostrado acima seria impossível um judeu de olhos azuis em plena antiguidade. O autor ainda aforma que pedro tirava o bigode e que seu irmão sempre estava bem barbeado, o que denota mais um erro crasso, pois existe uma lei na Torah que diz “e não tocaras na extremidade de tua barba”, que faz com que os homens não raspem nunca sua barba, e faz com que muitos ortodoxos deixem ainda uma trancinha de cada lado do rosto, na junção da barba com o cabelo. Logo a lei proíbe e inibe que os homens tirem sua barba, ainda mais que usem a face totalmente desprovida de barba e bigode, o que era uma moda grega, e a cultura grega era totalmente repudiada pelos judeus (apenas alguns da elite eram coniventes, mas não totalmente helenizados).
  • O autor pinta Jesus com um manto vermelho. O manto chama-se Talit, que é o manto de oração dos judeus, e existem leis que o regulamentem. Entre eles seria a presença de um fio azul em cada um dos quatro cantos do manto. Quanto as cores, vale ressaltar que os romanos impuseram muitas restrições, pois as castas romanas se diferenciavam pelas cores de seus mantos, por exemplo, as cores azul e vermelho e todas as suas tonalidades eram exclusivas dos cidadãos de roma, sendo passivel de morte outra pessoa as ostentar, logo Jesus já teria morrido por desacato se realmente tivesse um manto vermelho. Outro ponto, para se adentrar no templo de jerusalém, os judeus usavam mantos brancos, pois no momento da oração, todos cobertos de mantos brancos (demonstrando pureza e humildade) seriam todos iguais perante Deus (tanto ricos quanto pobres), logo o mais comum é que todos os mantos fossem brancos ou em tons claros, e nunca nas tonalidades de azul e de vermelho.
  • O autor fala que todos os dias escutava-se moendas de grãos, até mesmo na casa de lazaro, mas sua irmã comprava o pão. Se existiam moendas é justamente para fazer a farinha para fazer pão, não havendo a necessidade de comprar, pois a compra era justamente para os estrangeiros ou para os próprios romanos que lá habitavam.
  • O major do livro fala que teve um bom aprendizado de grego, aramaico (alguns dialetos) e até mesmo hebraico, mas não conhece a palavra “tecton” em grego (construtor), ou muitas expressões em aramaico, que seriam de uso corriqueiro.
  • Pagina 211, 2º paragrafo. Fala de um relevo onde se vê uma estrela de 5 pontas e o mesmo faz menção ser a estrela de Davi, só que a estrela de Davi possui 6 pontas. O autor fala que a palavra Jerusalém é formada por 5 letras, uma em cada ponta da estrela, mas como já dito, a estrela de Davi tem 6 pontas, e a palavra Jerusalém escrita em hebraico ou aramaico possui 7 letras.
  • Pagina 214, 6º paragrafo. O autor fala que Jesus disse que Deus abandonaria os judeus e eles seriam destruídos se renegassem a doutrina que Jesus estava trazendo. Bom, quanto a isso não precisa ser um especialista para ver a incoerência, primeiro que Deus não abandonaria, e segundo que mesmo os Judeus rejeitando Jesus até hoje, eles continuam existindo, e reconstruindo seu estado autônomo como nos tempos do rei Davi.
  • Pagina 305-306, cardápio da pascoa. Em primeiro lugar o cordeiro era feito no templo, e ao que da a entender era cozido e não assado. Em segundo lugar, patas e vísceras são partes impuras e jamais seriam servidas juntas, nem ao mesmo preparadas, pois após o abate de forma kasher estas partes são colocadas foras imediatamente ou vendidas a não judeus.
  • O autor fala em Jaroset, que em português se escreveria Harosset. Mas a receita esta errada, pois o harosset não vai vinagre. E não é sobremesa, faz parte do pratos ou dos seis pratos principais servidos numa única bandeja. É uma pasta a ser comida com as mãos e não uma compota como descrito.
  • Todo o projeto cavalo de troia teve um extremo cuidado para não levar nada de nosso tempo ao passado, tanto que o personagem Elizeu recebia alimentação via sonda, e suas fezes eram coletadas em um aparelho conectado na sua extremidade retal, pois o mesmo não faria nenhuma alimentação dentro do “Berço” para evitar varios perigos. Como então o personagem Jasão faz um desjejum a moda americana, com cereal, leite, ovos e bacon? De onde em plena palestina do século 1 conseguiria bacon e cereal? Onde ele cozinhou este café da manhã, já que o livro dá a entender que não existia “cozinha” no berço?

A obra ainda apresenta muitos erros, tanto nas leis quanto nos costumes judaicos, mas somente com o pouco apresentado podemos averiguar que não se trata de um relato verdadeiro, mas sim de uma obra de ficção, que não teve o minimo de estudo para sua construção, pois que se fossem resolvidos estes pontos até poderíamos dar créditos ao enredo, mas, as evidências comprovam a total desarmonia em datas, locais, costumes, tradições, entre outros tantos detalhes.

6 comentários:

Unknown disse...

Estava procurando justamente na internet uma critica a Operação cavalo de Troia de J J Benitez. Como admiradora da obra, sempre pensei que fosse ficcional. E,bora traga ao mundo mais uma vez, a mensagem de Jesus por um viés humano e claro. O que sempre duvidei é se em 1973 teríamos tenologia para tantos saltos no tempo, Mas essa delicosa critica histórica recoloca a obra no seu verdadeiro lugar.
Obrigada!
saudações,
cristina braga , sao paulo-sp

Unknown disse...

Estou lendo o vol. 9, como sempre os muitos detalhes deixam a obra chata e cansativa, como ae o muito falar comprove a veracidade dos fatos. Não sei se irei até o fim.

Unknown disse...

Com este comentário não digo que acredito na veracidade da obra de J.J.Benitez, mas apenas analisando alguns dados.
1º Segundo a obra, Jasão retornou ao dia 30 de março do ano 30, uma quinta-feira. Data confirmada por um calendário perpetuo.
2º Jesus teria morrido no dia 7 de abril do mesmo ano, sexta-feira. A páscoa daquele ano caiu no dia 9 de abril, um domingo. Dado confirmado por um calendário perpetuo e por uma reportagem no site: http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL1077890-9982,00-PESQUISADOR+LEVANTA+DUVIDAS+SOBRE+IDADE+DE+JESUS+AO+MORRER.html, mais diretamente este trecho: ” Ele morreu em uma sexta-feira com lua cheia em Páscoa, por isso sabe-se que 15 de Nisã - o primeiro dos 12 meses do calendário judaico -, que é quando se comemora a Páscoa judaica, reunia essas condições" entre os anos citados. "O resultado é que há duas opções: 7 de abril do ano 30, segundo o qual Cristo teria morrido com 36 anos, e 3 de abril de 33, no qual Cristo teria 39", assegura.” Prof. de Filologia Grega da Univ. Complutense de Madri e especialista em Linguística e Literatura do Cristianismo Primitivo, Antonio Piñero
3º Segundo o autor, Jesus teria morrido com 36 anos, pois teria nascido no ano -7 e não teria completado ainda 37, que seria apenas no dia 21 de agosto.
4º A bíblia não cita a idade com que Cristo morreu, mas segundo o site acima pode ter cido com 36 ou 39 anos.
Como não sou conhecedor da cultura judaica, não posso argumentar sobre seus costumes, somente observações sobre as datas, mas creio que o Major como qualquer pessoa poderia estar enganado sobre alguns costumes e, talvez, alguns pratos e costumes tenham variações em determinadas regiões.

k disse...

Meu caro, é claro que é pura ficção... o blá, blá, blá do Benitez se algo acometer-lhe revelaria a fonte, foi apenas um chamariz para denotar a obra entre tantas do em voga na época. Na verdade o que ele queria desde o inicio era dinheiro fácil, através dos adoradores da teoria conspiratória...

leonardo_rui@hotmail.com disse...

Os dados do livro podem até estar errados, mas que garante que a bíblia tem todas as informações corretas e verdadeiras? o livro traz uma ponta de duvida, e não diz que o que está escrito é verdadeiro e sim que são informações baseadas em documentos, na minha opinião o livro traz um ensinamento ótimo.

Unknown disse...

Sendo ou não ficçao, o fato de ter em mente um Jesus humano, real é impressionante e nos aproxima da verdade... O livro é ficçao e é maravilhoso, e alguém pode provar que os escritos biblicos são reais? Tiro meu chapéu para J.J. Benitez e quem disse que ele queria dinheiro fácil proponho escrever uma obra semelhante e rica em detalhes...